«As características da inteligência geralmente classificadas de analíticas são, em si mesmas, pouco susceptíveis de análise. Só as apreciamos através dos seus efeitos - só as reconhecemos, entre outras coisas, porque, quando possuídas em abundância fora do vulgar, são quase sempre fonte do mais vivido divertimento para o seu possuidor. Assim como o atleta exulta com os seus dotes físicos, deleitando-se a executar exercícios que lhe ponham em acção um maior número de músculos, também o espírito analítico se deleita com toda a actividade mental que desemaranhe qualquer problema intrincado. Mesmo da mais trivial das ocupações colhe prazer ao pôr em jogo todos os seus talentos. Gosta de enigmas, de adivinhas, de problemas cifrados, exibindo, ao solucioná-los, uma agudeza de espírito que, à vulgar capacidade intelectual parece milagrosa. Os resultados que consegue obter - produto final da mais pura essência do método dedutivo - têm, na realidade, toda a aparência de intuitivos, e a facilidade com que soluciona qualquer problema deve-se ao conhecimento profundo que tem da Matemática e muito em especial à prática do seu mais apurado método a que indevidamente, e apenas por causa das operações retrospectivas que elabora, foi chamado analítico. Contudo, calcular não é propriamente analisar.
(...)
O poder da análise não deve confundir-se com a mera habilidade, pois enquanto o espírito analítico é necessariamente hábil, o homem hábil na maior parte dos casos sente-se incapaz de analisar. A capacidade de combinar ideias e tirar conclusões, regra geral é considerada como manifestação de agudeza da inteligência - e para a qual os frenologistas (a meu ver erradamente) descortinaram um órgão próprio, por a encararem como uma faculdade primitiva -, é com tanta frequência assinalada em pessoas cuja inteligência raia pela idiotia que tem merecido a atenção dos moralistas e escritores. Entre a perícia pura e simples e a perícia doo analítico há uma diferença maior, embora de carácter análogo, do que a existente entre a fantasia e a imaginação. Assim os cérebros astutos são dados a fantasias, mas os verdadeiramente imaginativos são na realidade os analíticos.»
Edgar Allan Poe
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